"Aqueles que buscam um remédio completo para os sofrimentos das classes trabalhadoras vão além do sindicalismo. Percebem que devem modificar mais profundamente as relações entre Trabalho e Capital; para superar o abismo os dividindo, e então abolir a rivalidade de interesses que gerou tanta desumanidade para o homem. Um tipo de reformadores propõe fazer esta mudança pela abolição absoluta do capital privado - tirando o capital, ou os instrumentos materiais da produção de riqueza, das mãos dos indivíduos ou classes, e fazendo-o propriedade da comunidade, investindo-o no Estado. Este plano - o sonho do Socialista - impossível de funcionar na prática, colapsou desesperadamente onde quer que tenha sido tentado, viola a concepção fundamental de toda a propriedade. Que o que um homem livre cria com seu trabalho, é sua propriedade; se é sua propriedade ele pode fazer com ela o que quiser - consumi-la ou reservá-la para produção futura. Negar-lhe o direito de reservá-la ou utilizá-la como capital seria negar-lhe o direito de possuir propriedade. Deste ponto de vista - assim como de outros - o Socialismo tem muito em comum com a escravidão."
A citação acima, do artigo sobre Cooperação lido pelo Padre Finlay, S.J., diante do quarto encontro anual do Sindicato de Maynooth, pede mais do que uma breve nota, é merecedora de uma crítica mais inteligente do que nossos capitalistas contemporâneos puderam fazer. Por esta razão propomos colocar aos nossos leitores um breve resumo da nossa posição, até onde pelo menos ela é afetada pelas afirmações contidas no artigo citado acima.
Nós já sabemos que nenhum homem na Irlanda dentro do clero, e poucos homens na Irlanda fora dos quadros dos partidários do Socialismo científico, pode tratar de questões da economia política, e dos efeitos que as teorias da economia política tiveram na vida industrial do povo, com tanta riqueza de conhecimento como o cavalheiro reverendo cujo artigo estamos agora discutindo. Os débeis e ineficientes esforços dos jornalistas Autogovernistas para criticar o movimento cooperativo ao qual o Padre Finlay devota tanta da sua energia e habilidade é uma prova em si mesmo que, por mais eficientes que nossos guias jornalísticos sejam agradáveis ao paladar de um público leitor pronto para perdoar toda inconsistência de argumento, ou embelezamento dos fatos, desde que ela seja temperada com uma pitada de "patriotismo" ou verdadeira religião, como ajudantes na discussão inteligente de uma questão econômica eles são piores do que inúteis. As teorias econômicas defendidas pelos partidos não-Socialistas na Irlanda hoje e difundidas pelos publicistas na imprensa e na política são na verdade as teorias que prevaleceram na Inglaterra há mais de 50 anos - durante a pequena agitação pela revogação das Leis dos Cereais, e pela Liberdade de Comércio em geral. Tais ideias são agora vistas pelo resto do mundo como desgastadas e obsoletas; é somente na Irlanda que elas sobrevivem, e na Irlanda somente entre homens que tendo falhado manter-se a par da marcha intelectual do mundo se convenceram que a incapacidade intelectual que os mantém afastados da simpatia do pensamento do tempo é a distinta marca de nascença de um verdadeiro Celta. Que a crítica de tais pessoas deva ter pouco efeito em adicionar ao nosso conhecimento qualquer verdade importante sobre um assunto econômico é, claro, esperado, e não propomos desperdiçar o tempo dos leitores ou nosso próprio discutindo eles, mas os argumentos do Padre Finlay naturalmente têm mais peso, e merecem, repetimos, um estudo muito mais sério.
Para começar gostaríamos de lembrar o palestrante reverendo que ele não colocou para seus ouvintes uma ideia clara e definida da verdadeira posição Socialista como ele mesmo possui. Na palestra dada em Dublin ante a Sociedade de Estatística, alguns anos atrás, tratando dos ensinamentos de Karl Marx - o mais capaz expoente do Socialismo que o mundo já viu, e o fundador daquela escola de pensamento que abarca todos os partidos Socialistas militantes do mundo - o Padre Finlay colocou diante dos seus ouvintes uma exposição da natureza evolucionária da doutrina Socialista, sua derivação histórica e base materialista, que não é nada compatível com a vulgarmente falsa concepção de Socialismo encontrada na citação anterior. O Socialismo moderno, ele mostrou, não é o produto dos cérebros de qualquer homem nem de um número de homens; é o filho legítimo de uma longa, exaustiva evolução histórica, e sua consumação só será finalmente possível quando o processo evolucionário tenha alcançado um estágio adequado de desenvolvimento. Como a sociedade capitalista - o sistema de salários - trabalho e "liberdade de contrato" entre mestre e homem - foi somente desenvolvido quando o sistema do feudalismo - ou trabalho servil sob uma nobreza hereditária, latifundiária - colapsou devido a demanda de novos métodos de indústria produzidos pela abertura de novos mercados pela descoberta da América, e o aperfeiçoamento dos meios de transporte e comunicação, de maneira parecida o Socialismo também virá quando o desenvolvimento do capitalismo por sua vez tornar o peso da classe capitalista insuportável - e o sistema capitalista impossível. Os Socialistas apontam que o sistema capitalista depende da manutenção do equilíbrio entre as forças de produção e consumo do mundo; que o negócio só pode continuar enquanto as mercadorias produzidas encontrarem clientes; que devido ao rápido desenvolvimento do maquinário este equilíbrio não pode ser mantido; que as forças produtivas do mundo estão crescendo continuamente enquanto os mercados virgens do mundo estão continuamente diminuindo; que cada novo processo científico aplicado à indústria, cada novo aperfeiçoamento do maquinário, aumenta a produtividade do trabalho, mas enquanto a área do mundo permanecer inalterada a esperança de encontrar novos mercados para os produtos do trabalho diminui cada vez mais; que deve chegar a hora quando todo o mundo estará exausto como um mercado para as mercadorias do comércio, e ainda a invenção e o aperfeiçoamento industrial permanece ativo como nunca; que o capitalismo - capaz de produzir mais em alguns meses do que abasteceria seus clientes por anos - não terá trabalho para os trabalhadores, que, constituindo a vasta maioria, terão que escolher entre a fome certa e a revolta pelo Socialismo. Que o mesmo desenvolvimento econômico que criará a necessidade de revolta também proverá as condições necessárias para fazer a revolta bem-sucedida, na medida em que terá expulsado do negócio a multitude de pequenos capitalistas, e substituido eles por enormes empresas, lojas, e trustes - uma unificação da indústria, necessitando somente a transferência do direito de propriedade do indivíduo para a comunidade democrática para superar o abismo entre o capitalismo e o Socialismo. Que a propriedade privada que o trabalhador deveria possuir devido ao seu trabalho seja continuamente confiscada hoje pelo processo capitalista de indústria, e que o Socialismo ao fazer todos os cidadãos - a sociedade - herdeiros e proprietários conjuntos das ferramentas de produção, restaurará aos trabalhadores aquela propriedade privada que o capitalismo tira deles.
Aqui está então uma declaração dos objetivos e princípios do Socialismo moderno. O leitor inteligente observará que esta não é uma mera peça de filosofia especulativa, nem ainda o produto de mentes confusas afetadas por estômagos famintos. Pelo contrário é primariamente uma análise científica da estrutura passada e presente da sociedade - uma completa coleção dos fatos da história.
Frente a este fato, que lembraríamos respeitosamente ao Padre Finlay que ele mesmo já explicou muito lucidamente, o que resta da sua declaração em Maynooth que o Socialismo "colapsou desesperadamente onde quer que tenha sido tentado." Este argumento é rudemente falso, maldoso, e enganoso, e o Padre Finlay não arriscaria sua reputação repetindo ele ante qualquer audiência de cientistas no mundo. Que ele tenha achado justo fazer tal afirmação em Maynooth é uma indicação interessante da pouca estima que ele tem da capacidade intelectual dos seus ouvintes sobre o pensamento da sua geração. O Socialismo não "colapsou onde quer que tenha sido tentado," porque, sendo fruto de uma evolução histórica ainda a ser completada, ele nunca foi tentado.
Se o Padre Finlay puder dizer quando e onde uma ordem industrial que fosse reconhecida pelos partidos Socialistas do mundo como Socialismo, tenha sido tentada e falhou, então publicamente reconheceremos nossos erros. Aguardando tal informação nós, e conosco um bando sempre crescente de escravos-assalariados do capitalismo, continuaremos nos preparando para aquela revolta que estabelecerá a República Socialista.